A força dos músculos e
ossos
O esqueleto humano é o engenho mecânico mais perfeito já criado pela
natureza, mas exige cuidados. Dois fatores para seu equilíbrio são a
alimentação balanceada e a atividade física regular.
O ser humano tem a sorte de
estar edificado sobre um esqueleto sólido como o concreto armado. Nossos 206
ossos, além de sustentar o corpo e proteger os órgãos internos, proporcionam
uma estrutura sobre a qual atuam os músculos, poderosas massas fibrosas contráteis
que possibilitam os movimentos. Desprovidos de esqueleto e musculatura,
seríamos criaturas flácidas e indefesas, que deslizariam pelo chão como plantas
rasteiras.
Constituído por
ossos, músculos, tendões, ligamentos e outros componentes das articulações, o
sistema músculo-esquelético é o engenho mecânico mais completo já projetado
pela natureza, capaz de executar variadas ordens emitidas pelo cérebro – desde
pintar um soldadinho de chumbo até rebocar grandes objetos. Os ossos estão
preparados para resistir a movimentos fortes e bruscos. Essa característica é
fruto de sua arquitetura interna. Fibras de colágeno e cristais salinos se
entrelaçam para formar algo parecido com um edifício: as fibras de colágeno
equivalem a barras de aço, que garantem ao osso grande resistência à tensão,
enquanto o papel do cimento é executado por cristais de hidroxiapatita. Esses,
tão duros quanto o mármore, garantem às peças esqueléticas uma resistência à
compressão superior à do concreto armado.
Em constante
regeneração
No centro dos
ossos encontra-se a medula, uma substância suave e menos densa em que se
localizam células especializadas em uma função vital, embora às vezes ignorada
ou esquecida: a produção do sangue. Como qualquer tecido vivo, os ossos estão
em processo constante de regeneração. O osso velho é digerido por células
ósseas chamadas osteoclastos. Quando elas terminam sua tarefa, abandonam o meio
para que os osteoblastos, outra família celular, reconstituam as porções de
osso eliminadas. Normalmente, exceto nos ossos em crescimento, as taxas de
tecido ósseo digerido e reconstituído são iguais entre si, de modo que sempre
teremos a mesma quantidade de osso.
Para nossa
infelicidade, esse equilíbrio se rompe naturalmente à medida que envelhecemos.
Os ossos humanos atingem seu maior vigor por volta dos 30, 35 anos de idade. A
partir de então, podemos perder de 3 a 5 mm de densidade óssea por ano. E mais:
certas doenças, o sedentarismo, a deficiência de cálcio e vitamina D, o uso de
determinados medicamentos, o abuso de álcool e cigarro e a menopausa precoce,
entre outros fatores, podem acelerar a perda de qualidade e quantidade do
tecido ósseo.
O esqueleto de
pouco serviria se não fosse acionado pela musculatura que o envolve.
Responsável pela postura e pelos movimentos, a musculatura esquelética é
composta por cerca de 600 músculos de diferentes formas e tamanhos – do
milimétrico estapédio do ouvido médio ao quadríceps da coxa, milhões de vezes
mais volumoso. Cada músculo é constituído por fibras musculares de dois tipos
principais: as de contração rápida, que facilitam a execução dos movimentos
explosivos, e as de contração lenta, úteis nas atividades de resistência.
Algumas pessoas têm mais fibras lentas que rápidas. Em outras, ocorre o
contrário. Essas diferenças musculares podem definir nossa aptidão para
realizar certos exercícios ou nos sobressairmos em um dado esporte: pessoas com
mais fibra rápida se destacam nas provas de salto e nas corridas de 100 m, ao
passo que os mais ricos em fibras lentas tendem a vencer as maratonas.
Não há
comprovação científica de que o treinamento físico modifique as quantidades
relativas dos tipos de fibra muscular. A composição fibrosa dos músculos é uma
herança genética. Por isso, pode-se falar em uma predisposição para esportes
específicos. Compare: numa pessoa normal, a proporção média entre fibras
rápidas e lentas no quadríceps é de 55 para 45%; num corredor de maratona, de
18 para 82%; num velocista ou saltador, de 63 para 37%.
A predisposição
genética também está relacionada à massa muscular e à secreção de testosterona,
o hormônio que garante aos homens uma musculatura mais exuberante que a das
mulheres. Mas, diferentemente do que ocorre em relação à composição fibrosa, a
atividade muscular influi no aumento da massa e da resistência. O sedentarismo
deixa os músculos mais fracos e pode causar atrofia, ao passo que o treinamento
ajuda a aumentar o volume dos músculos, melhora sua potência e os deixa mais
resistentes à fadiga.
Viciados em malhação
Uma dieta
balanceada e a atividade física regular favorecem uma musculatura mais saudável
e retardam o declínio natural da força e da capacidade de movimentação do
corpo. Nos dias de hoje, muita gente relaciona a boa forma à beleza e ao
sucesso. Por isso, a atividade física pode se converter numa obsessão
patológica. Os psiquiatras advertem que o culto exagerado à hipertrofia
muscular pode ser o primeiro passo para a vigorexia, também conhecida como
Síndrome de Adonis, um transtorno cada vez mais comum entre homens de 18 a 35
anos. Quem sofre desse mal pode dedicar até cinco horas diárias ao
fortalecimento dos músculos e, ainda assim, se achar fraco e flácido.
A maioria das
pessoas não percebe que a principal vantagem do exercício físico regular é, na
verdade, proteger o corpo das doenças reumáticas. Quando o aparelho locomotor
adoece, a qualidade de vida cai vertiginosamente: dor, inchaço, enrijecimento
das articulações, fisgadas, distensões, fraqueza e cansaço localizado em partes
do corpo, perda do apetite e, claro, dificuldade para se movimentar.
Uma em cada
quatro pessoas que recorrem a um médico tem sintomas de problemas
músculo-esqueléticos. Já foram descritas mais de 300 doenças que afetam ossos,
articulações, músculos, ligamentos e tendões. Essas doenças são chamadas
popularmente de reumatismos. Algumas delas, como a artrite, são causadas pela
degeneração da cartilagem que envolve as articulações. Outras, como a artrose
reumática, decorrem de uma persistente inflamação articular. Às vezes, o
problema é o inchaço da articulação devido ao acúmulo de cristais de ácido
úrico, como na gota, e em outros casos são as articulações da coluna que se
inflamam, “fundindo-se” entre si, como na espondilite anquilosante. Nas pessoas
com osteoporose, os ossos se descalcificam. Quem tem fibromialgia sofre de dor
e rigidez nos tecidos moles, como músculos e tendões.
“As doenças do
aparelho locomotor são a segunda maior causa de falta ao trabalho no Brasil”,
afirma o reumatologista Eduardo Meirelles, chefe do Grupo de Reumatologia do
Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, de São Paulo.
“Só perdem para doenças infecciosas do sistema respiratório, como a gripe.” O
médico explica que o clima ensolarado do país favorece a ativação da vitamina D
no organismo, a responsável pela absorção de cálcio, e nos deixa, em teoria,
mais resistentes a doenças ósseas. Em teoria, porque alimentação e atividade
física são outros fatores importantes.
Terceira causa de invalidez
Dados do
Ministério da Saúde indicam que os reumatismos atingem cerca de 20% da
população acima de 40 anos. Acredita-se que todas as pessoas que chegarem aos
90 anos terão algum grau de comprometimento osteoarticular, mas não
apresentarão necessariamente os sintomas da doença. No Brasil, existem cerca de
50 milhões de pessoas que sofrem de algum tipo de doença reumática,
principalmente a artrose e o reumatismo das partes moles. O reumatismo nas
partes moles atinge músculos e tendões e é mais comum em pessoas adultas. Em
geral, resulta de traumas provocados por esforços excessivos ou repetitivos.
As doenças
reumáticas são um grande problema de saúde pública no Brasil. Além de ser a
segunda maior causa de afastamento temporário do trabalho, são a terceira
principal razão de aposentadoria precoce por invalidez, perdendo apenas para as
doenças cardíacas e mentais. A boa notícia é que já existe um amplo arsenal
terapêutico para frear e mesmo reverter os males reumáticos. Para tanto, o
diagnóstico precoce é fundamental. “Só isso pode garantir uma intervenção
rápida em estágios ainda reversíveis das doenças. O sucesso do tratamento é
proporcional à precocidade com que é administrado”, diz o reumatologista Javier
Paulino, presidente da Liga Reumatológica Espanhola.
A maioria das
doenças reumáticas não tem cura, mas mudanças comportamentais, aliadas a
medicamentos adequados, podem melhorar consideravelmente a qualidade de vida
dos pacientes. Se você sofre de algum tipo de incômodo ósseo ou muscular,
convém procurar o médico. Ele pode avaliar se você sofre de um mal passageiro
ou se está experimentando os primeiros sintomas de uma doença reumática. n
Adaptação Leandro Quintanilha
Fonte: http://super.abril.com.br/saude/forca-musculos-ossos-446375.shtml
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